Enquanto lia Bukowski, ela lembrou dele. Por uma frase tão simples. Por uma palavra tão pequena. Chuva.
Ela tinha dezessete. Ele quinze. O parque estava quase fechando e os dois caminhavam de mãos dadas, por entre as árvores e arbustos, procurando a saída mais longa.
Mas a chuva começava a cair, e os dois resolveram esconder-se embaixo dos galhos de um cajueiro. As folhas verdes, meio comidas pelas lagartas, alguns cajus vermelhos pendurados, e os dois abraçados, para diminuir o frio que vinha com a chuva fina.
Até que ela teve a idéia e correu para a chuva. Ele, meio assustado e preocupado, a seguiu. E então ela matou sua fantasia.
A pele dele molhada, a boca vermelha e grossa, temperada pelos pingos que caíam, e o corpo tão bom e tão forte. Ela tinha que ficar na ponta dos pés para alcançá-lo. E entregava-se aos lábios e às mãos dele.
Já não pensava em nada, se não fosse o guarda saído de não se sabe onde, avisando que o parque estava fechado. E eles precisavam ir embora.